terça-feira, 3 de julho de 2012

5 Braços E 7 Pernas

"To kill the babies", essa foi a definição que um grande diretor me deu para a hora da edição. Editar é escolher as cenas que entrarão no filme. A sequência que melhor conta a história. Não, não tem que entrar aquela cena que você a-d-o-r-a. Tem que entrar as cenas que servem bem a seu propósito. Por vezes a cena que você adora ficou longa demais, por exemplo. Geralmente, aqui na América do Sul pelo menos, o diretor entrega todas as cenas para um editor. Esse cara nunca viu nada e tem um critério não emocional sobre as cenas todas. Ele não conhece, não ama nada e vai escolher uma maneira de editar. E aí, logo em seguida vem o diretor de novo e dá seus palpites. Já vi diretor e editor terem uns puta pau por divergência de opinião mas quem tem a palavra final é o diretor. E aí entramos nós. E é aí que faz diferença termos ido à filmagem e conhecermos tudo o que foi filmado. Porque nessa hora podemos mudar cenas, trocar sequências, caso necessário. Na maioria das vezes não mudamos nada, na maioria das vezes o filme vem super editado. Mas tem horas que acontece um fenômeno trágico: o diretor não saber editar. O fdp não saber o que fazer com aquele monte de cenas que fez, é confuso, é inseguro, tem ataques de pânico. Já me aconteceu, juro. E aí você tem que intervir mesmo. Começar a edição do zero. E tem outro fenômeno também, esse positivo. Aparece um novo filme em sua cabeça. Você pode descobrir que uma sequência inteira é desnecessária. Que uma explicação ficou sobrando. Não entre em pânico por não ter percebido isso antes. Edite o filme ideal. O filme que não fala demais, que não explica demais. Já retirei uma sequência gigante de um filme, incluindo um demo. Quase matei o atendimento do coração. Mas quando apresentei ao cliente eles foram os primeiros a perceber que o filme ficava melhor assim. Um filme é uma gestação, só que com a chance de mudar o bebê. Se ele estiver nascendo com 5 pernas, tire uma. Volto a dizer, o roteiro não é uma lei. O importante é o filme e se precisar mudar tem que ser mudado. Por "precisar mudar" não quero dizer satisfazer os caprichos de um criativo que se acha artista. "Mudar" quer dizer contar a história de outra maneira para que fique melhor de entender. "Melhor de entender" não é falar mais, não é explicar mais. É explicar direito, sem mais nem menos, deixando espaço para o consumidor se sentir inteligente por ter dado sua parcela de contribuição. Explicar demais nem com criança funciona.


PS - a foto é de uma moviola, a maneira antiga como se faziam edições na época do Mad Men. Metros e metros de filmes que ele ia cortando e colando com durex. Hoje é preciso apenas um menino de 20 anos munido de um laptop com um programa chamado Final Cut.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Personagem Principal: H1N1

Aqui sou eu filmando na Argentina em plena epidemia de gripe suína. Me cobriram de máscaras, luvas e álcool gel. Filmar é assim, se tem que ser naquele dia tem que ser. Os prazos são sempre apertados de cumprir e temos que enfrentar de tudo.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Pré-Pré

Então Ok, tem a reunião de PPM, que é a pre-production meeting, onde a produtora, apoiada pela agência, apresenta para o cliente todo o projeto. Como pretende filmar, com quem, que roupa, que locação, que decoração, etc, etc. Essa reunião é importantíssima, sem discussão. Mas vou falar mesmo é da reunião de PPM com a agência. Eu sempre faço uma "pré" PPM somente com os criativos e o atendimento um dia antes da reunião com o cliente. Assim a produtora apresenta para nós o que pretende apresentar ao cliente. E é um dia antes para que tenhamos a chance de fazer mudanças. Não, não é algumas horas antes do cliente no mesmo dia. É um dia antes, 24 horas antes. Somente dessa maneira funciona. Assim é possível mudar a locação, mudar a ordem da apresentação, retirar atores que não gostamos, pedir que se desenhe novos quadros no shooting board. Todos os planetas e todas as pessoas serão contra esse hábito. Todos os projetos serão urgentes e toda vez tentarão tirar da criação esse dia de reunião com a produtora. Pois não permita. É uma reunião de trabalho super importante, uma etapa que muda o rumo das coisas. O começo da fase onde realmente começamos a visualizar o filme, o começo de sua materialização. E é importante ver antes do cliente, corrigir, aparar, trocar idéias com o diretor. É uma reunião de criação. E só a criação entende seu real valor.

sábado, 23 de junho de 2012

Quem Come De Tudo Sempre Está Mastigando

Imagine 150 pessoas trabalhando em uma filmagem no meio da selva, no alto de uma montanha, em uma ilha deserta ou no meio do gelo. Esse povo todo tem que comer. E comer bem. O trabalho de montar e desmontar grandes equipamentos é trabalho duro. Horas e horas acompanhando cada detalhe das cenas, trabalho duro. Para isso existem empresas que prestam um serviço maior do que o de um simples buffet. É o serviço de Catering. Ou seja, levar comida farta e boa a qualquer lugar em qualquer circunstância. E para nós que acompanhamos filmagem acontecem surpresas nesse sentido. No Brasil alguns Caterings servem, além da comida, sucos maravilhosos, vitaminas de abacate, abacaxi com hortelã, goiaba. Limonadas espetaculares, cremosas, batidas no liquidificador. Na Guatemala me serviram suco de arroz com canela no meio da tarde para dar um up. Na Argentina fazem assados de carnes de primeira, claro. No México entra um cara com 5 panelas diferentes e vai te recheando os tacos na hora. Alguns picantes, outros muito picantes e outro extra picante. E no Uruguai servem sobremesas dignas da melhor confeitaria francesa. As sobremesas vem flambando em sua direção, servidas por chefs de chapéu e tudo. Foi em uma filmagem que descobri ser o Uruguai um polo gastronômico no quesito sobremesas. As pessoas vão para lá ter aulas de patisserie. E tem a parte ruim. Cada país tem seus hábitos e a gente tem que engulir. As tortas de verdura da Argentina são intragáveis, bem como o café da manhã da Guatemala (tutu de fejão preto com creme de leite e ovos com cebola) é bastante difícil de encarar. E vice versa. Não me esqueço da cara do gringo que acompanhava uma filmagem aqui no Brasil ao se deparar com uma panelada de salsichas cortadas em pedaços pequenos, cozidas no molho de tomate, acompanhadas de pãozinhos franceses já abertos ao meio. Cachorro quente brasileiro. Delicioso para nós e horripilante para um americano. Ele me perguntou, com cara de nojo, se era sopa de salsicha. E essa comilança toda acontecendo dentro de barracões no Rio de Janeiro, no quintal de casas alugadas na Guatemala, no pátio de um colégio no Uruguai, em um povoado ou no meio de uma rua no centro de Buenos Aires. Em um palacete da Cidade do México ou em um estúdio gigante em São Paulo. Assim é a experiência de comer acompanhando filmagens. No mínimo uma boa maneira de conhecer outras culturas.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Filmando 360º

O shooting board é o guia da filmagem. Através dele sabemos quais são as cenas que serão filmadas. Não são todas as cenas que usaremos no comercial mas sim todas que serão filmadas. Todos os ângulos que serão explorados. De longe, de perto, em close up. Já existiram diretores que não faziam nem seguiam shooting board mas isso é coisa antiga. Hoje em dia já vamos para a filmagem sabendo bem tudo o que será feito e dessa maneira cumprimos um plano de filmagem. Com a hora certa onde cada cena será filmada. Já filmei com diretor que vai inventando na hora porque tem preguiça de pensar antes. Com ele não tivemos tempo nem de almoçar. Corremos atrás do louco por 12 horas, durante 3 dias. Isso foi na época em que se gastava dinheiro a tôa. Hoje não é mais assim, temos pouquíssimas horas para filmar tudo o que precisamos, temos que saber exatamente o que vamos fazer. Existe espaço para mudar de idéia? Sempre! Mas partimos do princípio de que sabemos de antemão. Gosto muito de filmar com horários definidos. Quantos minutos temos para fazer cada cena? 45, 30, 15? Então ninguém enrola. Brasileiros não gostam de horário, como todo mundo sabe, mas diretores e produtoras estrangeiros cuidam muito disso. Eles pagam altas horas extras e lidam com sindicatos criteriosos. No Brasil não era assim. Marcavam de começar as 9 da manhã e começavam as 11, um saco. Mas a cada ano que passa temos mudado muito e a cada projeto que faço noto muito mais critério nesse sentido. Mas, voltando ao shooting board, por que filmamos mais cenas do que cabe no filme? Porque precisamos ter opções. Muitas são as possibilidades de edição. Podemos começar fechado, depois abrir. E podemos começar aberto e depois fechar. Podemos começar o filme com a camera de cima mas também pode ser que fique melhor começar com um detalhe. Temos uma noção antecipada de como será mas não foi uma, nem dias, nem três vezes que mudei completamente a edição porque achamos uma maneira melhor de contar a história. E são coisas surpreendentes que acontecem. Por vezes retiramos pedaços enormes que filmados se mostram desnecessários. E temos que ter coisas filmadas que provavelmente serão pedidas pelo cliente, mesmo que desnecessárias. Closes de embalagens, por exemplo. Cliente adora colocar close de embalagem no meio do filme mesmo que no final vá aparecer uma cena com a embalagem gigante. Clientes acreditam nesse tipo de intervenção agressiva. Nos sabemos que isso faz um telespectador brochar totalmente mas temos que estar preparados. Não somos os donos do filme. Temos que estar preparados com cenas filmadas que agradem a todos os gostos.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Lado A Lado Com O Diretor

Tem diretor que odeia criativo na filmagem e tem criativo que detesta acompanhar filmagem. Não é o meu caso. Acho que a filmagem é uma extensão da criação e durante a filmagem é possível trocar mil idéias. Já fui colocada em uma saleta bem longe dos olhos do diretor mas por outro lado já fui chamada para sentar ao lado de outro porque ele queria trocar idéias e gostava que eu estivesse ao seu lado. Me pergunte com qual gostei mais de trabalhar. Mas existe um etiqueta para se trabalhar lado a lado. Tem que não encher o saco o tempo todo com inseguranças e perguntas. Fique quieto e só fale na hora que tiver dúvidas ou sugestões. E se tiver dúvidas o tempo todo se mate, você é que é o problema. Para estar em uma filmagem é preciso ter calma, ter senso de noção, ter confiança. O diretor sabe o que está fazendo, não é um idiota a quem você tenha que explicar tudo, desconfiar de tudo, perguntar tudo. Ele está trabalhando, observe, aprenda. Se ficar ansioso respire dentro de um saco plástico. E se tiver sugestões e dúvidas espere a hora certa. Deixe ele fazer suas tomas e quando der uma pausa vai lá falar o que sente. Tudo nessa vida tem que deixar rolar. Observar, ponderar. Seja um bom companheiro de filmagem, acrescente, faça sugestões legais. E abra a cabeça, tudo lá na hora é diferente do que você imaginou. Mas se prestar bem atenção geralmente é melhor.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Quem Vai Dirigir A Combi?

E agora, quem vai dirigir o filme? Na minha opinião, o que entendeu o objetivo do roteiro. Como saber quem entendeu? Pedindo devolução. Qualquer que seja o teu orçamento, pequeno, médio ou grande é igual, você terá que orçar com 3 nomes, 3 produtoras diferentes para que o cliente consiga ter uma noção de preços. Desses preços não temos nem que tomar conhecimento. Negociação de grana é entre o cliente e a produtora. Mas a escolha do melhor diretor é responsabilidade do criativo. Eu sempre escolho 3 nomes que tenham a ver com o projeto, 3 diretores que já fizeram trabalhos que demonstrem ser ele capaz do estilo que precisamos. Os diretores não gostam de ser catalogados mas nós sabemos, tem os que sabem dirigir ator e tem os que não sabem. Tem os que fazem filme lindo e tem os que fazem filme realista, meio feio, rústico. Tem os que cuidam de detalhes e tem os que não tem paciência para detalhes. Se você não conhece ainda os diretores olhe bem os rolos, isso tudo fica claro. Pois eu escolho 3 diretores que sim, tem a ver com o roteiro. Para esses 3 peço uma devolução. A devolução é um documento onde o diretor explica como contaria aquela história. E daí virão as surpresas. Não pense que o diretor fodão é o que faz a devolução fodona. Nada disso. Já descartei gente bem famosa de tanto que a criatura não entendeu nada do projeto. Vai ser lendo esse documento que você descobrirá quem é o cara que entendeu e está a fim do teu projeto. Não se preocupe, ler uma devolução é como ler a mão do diretor. As linhas vão se formando e dizendo o futuro. No final ficará claro, para o criativo e para o cliente, quem merece pegar o trabalho. Os diretores brasileiros demoraram muito para entender a devolução que é uma prática antiga fora do Brasil. Alguns até hoje acham que é pegar o roteiro e falar em outras palavras. A devolução desses parece que saiu do Google translator, nada a ver. Mas a maioria já entendeu e se esmera. Sabem que aí está o segredo. Já vi cliente pagar mais caro, escolher o diretor mais caro, somente porque ficou claro que ele faria o melhor trabalho. E já escolhi um desconhecido, aquele que está começando, porque a devolução dele era linda demais. Nunca me arrependi de escolher assim, sempre deu certo.